
Como não escrevi ontem, reservo esse parágrafo para lembrar os 4 anos de falecimento de meu irmão. dessa vez, ao invés de homenagem, prefiro contar um pouco das coisas que aconteceram. Talvez um dia eu relate tudo o que se passou, pelo menos tudo sob a minha perspectiva dos fatos.
Era mais ou menos 10h da manhã de sexta-feira quando a ambulância o levou ao hospital. Depois de um momento terrível em que pensamos que ele já estava morto e eu desesperada tentando passar as informações à atendente do SAMU, ele mesmo desperta e me ajuda a dar o endereço. No meio da tragédia, foi até engraçado. Houve muitas cenas cômicas no período de dor. Como o dia em que eu lhe dava comida na boca, no quarto do hospital. Estávamos eu e uma tia. Achei que fosse um molho de tomate, mas era uma espécie de creme de abóbora (ele não era muito de legumes...). na hora em que colocou a comida na boca fez uma cara tão feia!!! Então ele disse que era abóbora e demos tanta risada!! Não parece engraçado aqui, mas foi uma cena muito cômica. E teve o dia em estávamos no quarto (em casa) minha mãe e eu ajudando-o a comer, sei lá, não lembro bem, e meu pai por perto. Aí ele (meu pai) começou a falar que minha mãe tinha que fazer suco de beterraba, suco daquilo, que ele tinha de comer isso e aquilo. Quase a ponto de discutir com minha mãe.Eu e meu irmão começamos a rir das dicas de meu pai. Meu irmão me deu uma piscadinha e eu não aguentei. Caí na risada, mas não queria que meu pai percebesse que estávamos rindo dele, então tive de inventar qualquer coisa pra disfarçar. Foi hilário. Quando meu pai saiu meu irmão disse uma frase que marcou muito: "Não é um suco de beterraba que vai salvar a minha vida". Infelizmente não.
Bem, naquele dia em que a ambulância o levou (isso depois de ter estado internado, de ter ficado na UTI, de ter passado uns dias em casa) eu olhei aquela imagem e pensei que ele não voltaria mais para casa. Só o vi no sábado pela manhã, no horário de vistas da UTI, com a respiração fraca, os pés inchados, mas lúcido. Ele me fez uma recomendação sobre as visitas do dia. Disse que certas pessoa deveriam deixar de visitá-lo para que minha avó e meu cunhado pudessem ir.(Só entravam duas pessoas por horário) Parecia querer dizer que sabia que muitas pessoas desejavam visitá-lo, mas que havia algumas a quem ele queria dar preferência. Estava cansado. Ás 15h daquele mesmo dia, com minha avó ao seu lado, ele faleceu. Não poderia ser outra pessoa a estar ao lado dele. Somente ela, com a sabedoria e serenidade de seus quase 80 anos, na época, poderiam estar lá naquele momento. Fosse qualquer outro não saberia o que fazer. Ela rezou, pediu a Deus que levasse sua alma em paz.
Passarão anos mas acho que nunca esquecerei daqueles dias em que enquanto cuidávamos de sua saúde tão debilitada íamos ao mesmo tempo nos despedindo dele. Dias difíceis. Como foram difíceis os dias depois. A dor da ausência, as perguntas sem respostas, os trâmites legais, os documentos infindáveis...
Eu ainda me pergunto por que teve de ser assim. E se ele ainda estivesse vivo, como seria nossa vida? Nunca saberei. Só sei que a vida sem ele tem um vazio. Haverá sempre um espaço que deveria estar preenchido com sua presença.
