


A mostra de Trabalhos aconteceu numa das salas da Celer Faculdades, durante a Forma'~ao Continuada de professores da rede municipal.
Minha história da escrita – Arisangela Denti
Adoro escrever. Acredito mesmo que eu me saia melhor escrevendo do que falando. Muitas vezes durante minha vida escrevi aquilo que eu queria dizer e enviei bilhetes ou cartas. Às vezes simplesmente escrevia o que estava sentindo mesmo que o papel se perdesse depois. Servia para desabafar, para expressar meu pensamento e tudo o que eu sentia. Escrevi diários também, na adolescência, depois por um bom tempo não o fiz mais e há um ano retomei o velho hábito - embora eu fique meses sem escrever.
Bem, assim como a grande maioria das crianças, eu aprendi a ler e a escrever na escola, na primeira série. Na época quase não havia pré-escola, então, fui para a escola com sete anos completos. Foi fácil. Nunca tive dificuldades de aprendizagem e em casa meus irmãos e eu éramos bastante estimulados. Minha mãe era professora, por isso estávamos sempre a volta com cadernos, livros, giz e quadro negro para brincarmos de escolhinha. Também os móveis serviam de quadro negro.
Eu adorava brincar de escolhinha. Se não tinha alguém comigo eu dava aula para alunos imaginários. E havia um afilhado de minha mãe, uns dois anos mais novo que eu, que era meu aluno. Assim que dominei a leitura e a escrita eu dava aulas para ele. Minha mãe trazia da escola cópias de atividades que sobravam de suas aulas ou de outras professoras, e eu me sentava com Michel e ensinava as tarefas. Corrigia, dava nota.
Essa fase foi fundamental para minha relação com a leitura e a escrita. Depois disso não parei mais. Escrevia histórias criativas e sempre tirava boas notas. Eu lia, mas lembro-me de sempre escrever mais do que ler. Pelo menos passava mais horas escrevendo do que lendo. Na escola também. A hora da leitura era cronometrada e havia a página certa do livro para cada dia. As demais eram escondidas com uma folha de papel escura presa por um clips.
Contudo, os registros de minha escrita de que tenho lembrança são os da adolescência, como mencionei. Aos doze anos minha família mudou de cidade e foi morar em Palma Sola, uma pequenina cidade do extremo-oeste de Santa Catarina. Vivemos lá por apenas alguns meses, mas nesse período meus irmãos e eu fizemos muitos amigos. Mudamos de lá e fomos morar em Campo Erê, município próximo e um pouco maior que Palma Sola. Para manter o contato com minhas amigas e um amigo eu comecei a escrever cartas, pois não tínhamos telefone (nem eu nem meus amigos) e minha família estava numa situação financeira muito difícil, então raramente eu podia visitá-los. Foram muitas cartas trocadas. Cartas, cartões.
Passei a escrever um diário. Nele eu registrava tudo, minhas tristezas, os problemas familiares, os desentendimentos na escola, as descobertas amorosas... até mesmo o que estava acontecendo no Brasil e no mundo. Lembro-me de ter registrado o dia em que pela primeira vez houve eleições populares para presidente e foi eleito Collor de Mello. Eu não entendia nada de política, principalmente partidária, mas desejei que ele fizesse um bom governo.
Mantive o diário por muitos anos. Acabava um, começava outro. Até que um dia eu parei de escrever, Não me lembro quando nem por que. Entre tantas coisas guardadas ainda é capaz de eu encontrar os diários. Não sei se alguém mais os leu, mas no fundo acho que eu desejava que isso acontecesse, principalmente minha mãe. Era difícil falar de mim mesma pra ela, então se ela lesse o que eu escrevia me pouparia trabalho, angustia.
De tanto gostar de escrever, e não havia muitas opções para curso universitário que eu pudesse pagar e que pudesse me garantir um futuro, voltei a Chapecó para cursar Letras. Estudar Literatura e Língua Portuguesa me encantava, mas a escrita restringiu-se às obrigações acadêmicas. Trabalhos didáticos, resumos, fichamentos... mais tarde projetos e relatórios. Um tipo de escrita necessário, mas muito formal. E assim continuou depois.
Enquanto fazia o curso universitário fui professora – havia cursado o magistério. Minha primeira turma foi de alfabetização. Um trabalho lindo. Difícil, mas lindo. Foi tão emocionante ver os alunos desvendando as letras, as palavras, os textos... Embora o método possa não ter sido o melhor, o ideal, era aquele que eu havia aprendido, no qual eu creditava e o importante foi que a maioria das crianças aprendeu. Lembro-me com carinho de minhas professoras primárias e fico feliz em saber que serei lembrada também.
Ao terminar a graduação trabalhei como revisora de textos. Aprendi muito e percebi que a língua escrita tem muitos mistérios. Não há resposta exata pra tudo, aliás para muito pouca coisa, e é exatamente isso que assusta muitas pessoas e ao mesmo tempo encanta outras.
No mestrado vieram os artigos, as resenhas, a dissertação. A escrita se tornava algo pesado, só não o era mais porque eu sabia escrever bem. Os textos tinham progressão, lógica, havia poucos erros de sintaxe. Mas havia a pressão pela quantidade de páginas, pelas datas, pelo conteúdo. Foi penoso, mas consegui passar por essa experiência sem me traumatizar com minha produção textual. É claro que leio hoje minha dissertação e já não gosto muito do que leio, mas não foi mal.
Concluído o mestrado comecei a dar aulas em cursos de graduação. A escrita dos alunos era agora o meu objeto. Li muitos textos, projetos, relatórios, confesso que tive muitas decepções, pois a escrita de nossos acadêmicos está deixando muito a desejar. A escrita acadêmica, aliás, foi meu objeto de estudo para uma especialização,
No momento não dou mais aula no ensino universitário – Língua Portuguesa tornou-se matéria quase desnecessária, por isso não é preciso muitos professores – e a falta de concurso público me faz transitar entre ensino fundamental e médio. Também reviso textos e, eventualmente, dou aulas particulares de redação. Atuo como articuladora pedagógica da área de Língua Portuguesa, na secretaria municipal de educação de Chapecó.
Minha história da escrita é breve, afinal aprendi a resumir!! E também acho que é possível dizer o que se quer sem maiores delongas. Acho que escrevi tudo o que queria para esse texto.
A escrita está na minha história quase como a essência dela, especialmente na vida profissional.
Embora ela tenha sido meu objeto de trabalho, não tenho dúvidas de que ela exerce sobre mim um domínio muito maior do que o que eu exerço sob ela. Não são todos os que conseguem se libertar.
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